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In(só)mnia

Corri mundos em flecha. Imagens à velocidade da luz queimam-me as pálpebras. O ardor e o odor a carne queimada faz-me sentir em casa. As nuvens de fumo sobem até ao tecto, para morrerem e pairarem sobre o éter. Uma cara ganha forma. (Será o meu longo e distante amigo cuja voz me acompanha?)

Já não consigo respirar. Dói-me o simples pestanejar. Estou semi-morto. Um trapo. Não, um trapo não, estou apenas retido num mundo seco e disforme. É isso.

Boa... já aprendeste a regurgitar a decadência sob a forma de auto-(des)crença. Continua.

Sim, quero resguardar o corpo das intempéries. Escorrego cada vez que me levanto e dou o passo seguinte. Sinto o destino longínquo. Mundos, muitos mundos. Muitas retinas e queimaduras tão perto. Sinto o vómito a saborear o pescoço. Caio no fundo. O poço rasga-se na carne em sentido espiral cuja direcção aponta para fora do quarto. Será o Céu? Tão abalado espírito conseguirá atingi-Lo? Não. Quero dormir. Isso.

Que deleite.

Isso, adormece em plena insónia. Que admirável mundo novo...

jazia enquanto arrefecia

O acervo de emoções reprimidas. lembro-me quando desejei a morte do progenitor. Rasgar o triângulo no corpo. jazia morto e arrefecia enquanto o céu me cuspia. Ou deus. não sei.

isso. reprime. faz-te bem à alma. infinitos cortes. sangue vezes sangue é igual a dor infinita. o prazer. a dor. ou ambos.

caminho agora absorto. nú e sem pele percorro caminhos limpos com cheiro a formol. Mastigo o bisturi que me há-de dilacerar o coração. Anseio a ferida. já não durmo, já nem sequer como. Deixei-me das necessidades para passá-las a barbaridades.

estás no bom caminho. mais vale rastejar do que andar. aguarda-te o lixo. anda. sem demoras.

foi assim que perdi uma segunda inocência. as vozes são intermitentes e não menos atrozes. ditam-me. escrutinam-me. não sei... já nem vejo o céu.

Sono acordado?

Acordei de um sonho algo estranho. Palhaços corriam em círculos contínuos e incessantemente. Sem parar. Por vezes, alguns falavam comigo. Diziam-me:

Vês como é fácil? Sem temor, sem terror. É tudo tão fácil. Anda. Experimenta. Vais ver que te soltas desse teu corpo imundo e putrefacto.

Não sabia o que fazer ou dizer e deixava-me estar. Parado e imóvel. Decido aventurar-me nos pensamentos. Apenas ouço a voz interior. O meu único amigo. Companhia. Diz para voar. Sem pensar. Não o sei fazer. Nunca soube.

Sem temor, sem terror.

Não me sinto capaz. Não me sinto propriamente um Ícaro, além do mais não me apetece derreter as asas. Nunca tive vocação para anjo, nem sequer vontade. Essas mitologias já não me deslumbram. Já morreram. Faz muito, muito tempo. Mas mesmo assim, depois de tanto esforçar por contradizer aquilo em que já não acredito, decidi tentar uma última vez. Lancei-me de um prédio. Sem temor, sem terror...

Acordei na cama. Por estranho que pareça, vejo palhaços a correr a grande velocidade na janela. Batem-me à porta. Vou abrir. Um indivíduo cadavérico e muito velho. Olha-me intensamente sem dizer uma única palavra. Tem a cara pintada de branco e o nariz de vermelho. Passados alguns minutos desconfortáveis, diz:

Anda. Vamos voar. Sem temor, sem terror.

E fui. Nunca mais voltei a adormecer. Tenho insónias e nunca sei quando estou acordado ou a dormir. Já não sei se não consigo dormir ou se não consigo acordar...

(in)voluntário

encontrei um pedaço de papel junto aos caixotes do lixo. Peguei nele e pus-me a tentar decifrá-lo. Queimei duas horas de sol e energia cerebral. Senti-me dividido entre o amor e a solidão. Preferi o último porque o amor já não existe.

voltei a fumar. reincidi. sou feliz agora. as vozes ainda me desesperam quando mais preciso. estou sempre só - desistir de viver - e talvez me suicide um dia destes.

decidi percorrer todos os museus da cidade, todas as exposições, quadros, instalações, tudo. quero vomitar arte, porque a arte imita a vida, ou é a vida que imita a arte. Não sei e não me sinto particularmente interessado em descobri-lo. quero sentir por sentir. por isso inflijo dor a mim próprio. prefiro cortar-me, é mais libertador.

deixei de comer. além de não sentir vontade, penso que devo iniciar uma revolução em mim mesmo. sou a minha própria semente de transformação. contudo, não acredito na reinvenção. creio no eterno retorno. no inalterado. o regresso.

somos agora mais próximos. sofremos juntos. morremos juntos. caminhamos juntos. nunca te separarás de mim. mas podes tentar... ao menos divertir-me-ei com alguma coisa.

já não sorrio. vivo sem expressões. morri, até disso já estou farto.
o mar acalma-me. a alma explode. o sangue respeita-me. o corpo obriga-me. a mente desfalece.
até um dia. até já. ou mesmo adeus, quem sabe...

Fugas.

O céu está de novo escurecido. Negro. Sinto-me morto. Sem vida. Vazio.

Sopra o vento, deixa o sol queimar-te. Verás que a dor dissipar-se-á. Estás fraco. Estás seco...

O ar liquefaz-se, o cenário asfixia-me. Sinto-me num contra-senso. Começo a correr para longe, sem destino. A salvação aguarda-me algures, ou talvez em nenhures.

Isso, corre, foge, abandona. Mais te afastas mais te aproximas do abismo sem retorno a ti.

As vozes recomeçaram. Aumentam cada dia que passa. Cerro os olhos com toda a força que tenho e começa a socar os ouvidos. Cada vez com mais força, talvez a raiva as faça desaparecer...
Não consigo adormecer. Não consigo comer. Só consigo morrer.

(Re)torno

Percorro paisagens e paisagens em direcção ao nada. Múltiplas fracturas significam quimeras. O sonho acordado reflecte o meu eu paralelo aos meus eus quando durmo. A vigília confunde-se no sono. Esbatem-se pensamentos, discursos e narrativas.

Deixei de ser eu ou passei a ser eu? Fugi de mim ou retornei a mim?

Ressurjo das profundezas. Das cinzas do tempo refaço-me, como Fénix. Talvez me tenha absolutizado. A dor já não importa. Agora percorro desertos. Corro e corro e corro até ficar sem ar. Até cair no chão. Talvez morra feliz. Ou cansado. Já não sei o que digo.

De profundis clamo ad te, domine.

 
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