A subtileza ressurgia na frescura da minha nova personalidade. Já não me debato internamente como um ego refractado. Sou agora um. Uno. O indivisível. Falo por mim e por mim só, não dialogo comigo mesmo. O outro já não habita em mim. Estou curado.
Desejas tanto a cura que nem te apercebes da gravidade em que te tornas-te. Cada vez mais cavas fundo. O teu interior alarga-se a cada dia. A cura, meu caro, é coisa de um passado apenas pensado. Nunca foi possibilidade. Desde que nasceste que padeces de um destino que nada podes fazer (ou pensar) para o alterar.
Sinto-me rejuvenescido. Sinto-me outro, pelo menos no bom sentido da palavra. Estou sarado. As feridas fecharam-se. No entanto sinto-me à deriva dentro de mim próprio, caminhando para um fundo inóspito. Sinto-me em constante queda. Mas, pelo menos, já não sinto as vozes abaterem-se-me sobre o meu espírito.
Patético. Patético e sem salvação. Jamais serás são. Tempos e memórias perder-se-ão a cada dia. Assistirás ao teu próprio declínio sem sequer saberes. E mais, nada poderás fazer. Nenhuma metáfora te amparará nesse futuro escuro e sem fundo que te irá molestar dia a dia. Só te resta morrer.
Pareço bem mas sinto-me corroído por dentro. Os sonhos e esperanças morrem num segundo. Sei que a voz me acompanha de novo, sempre esteve e sempre estará, devorando-me pelas sombras e pensamentos doentios. Não sei o que sentir, não sei o que imaginar. Perdi-me hoje. Enfim, afundei-me.
