Acordei hoje indistinto ao mundo. Sou mais uma forma. Uma vazio. Ao menos, para que assim seja, tenho de subsistir, pois para ser esquizofrénico, tenho de pensar (ou não). Assegurada a minha existência, a minha metáfora que acompanha passo a passo a metafísica que suporta o meu mundo deteriora. Como bolas de fogo, e cuspo canções de embalar molhadas em vinho tinto. Caminho no infinito, e um deus para-me. Interroga-me: És filho de Bali? Não sei, mas talvez consiga escrever um poema. Não sei, sinto-me estranho. As palavras saem-me mas o significado fica-me na língua. É o que se chama a semântica linguística. Pelo menos não queimei a pele.

Sai para o mundo. Aventurei-me. Sinto-me um Ulisses. Mas não quero queimar as ases no sol. Não. Espera. Esse era Ítaco. Sinto-me confuso hoje.

O nevoeiro ao longe, levanta-se a bruma dos tempos e absorve-me. Estás pálido. Volta para a cama e mantém-te no sonho que não te acorda.

A frescura da brisa ataca-me a cara. Lutamos e consigo vencer o frio. Já não preciso de temer o deus do vento. Fui até ao café. Li. Fernando Pessoa apontou-me o dedo e intimidou-me. O universo chama-me. Olha para a parede e leio: Viaje até Bali. Um mundo à sua espera. Reflicto. Se calhar é o meu destino. Ir até Bali.

Princípe errante. Bali afigura-se um destino digno do teu reino. Sem doenças. Local inóspito. Vais dar-te bem.

Sou eu outra vez. Passo por casa, pego na mochila, carteira, dinheiro e um livro. Vou para o aeroporto, compro a viagem. Bali. Cheguei. Foi rápido. Parece um sonho. Vejo a praia. O sol ardente queima-me as folhas do livro. Perdi o meu sustento. Acordo no meu quarto. Lá se foi a metafísica.

Parece que não sou filho de Bali. O deus não me quis. Andei errante como um vagabundo. Talvez tenha sofrido o suficiente para deixar os pecados guardados na gaveta. Não sei. Como e deito-me. Passou mais um dia.

Agora já sabes o que é ser filho. Pertencer a algo que te escapa. Mataste a tua metafísica. Cortaste o último laço que tinhas com a realidade. Perdeste. Fracassaste e agora nada podes fazer. Boa fortuna!

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